Observação de libélulas pode impulsionar ecoturismo na Amazônia paraense
Written by Redação on 30 de outubro de 2026
A observação de libélulas pode abrir novas oportunidades para o ecoturismo comunitário na Amazônia paraense. Uma pesquisa científica realizada na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, entre os municípios de Santarém e Aveiro, no oeste do Pará, aponta que esses insetos podem se tornar atrativos para visitantes interessados na biodiversidade amazônica, além de contribuir para a conservação ambiental e o desenvolvimento econômico das comunidades tradicionais.
O estudo foi conduzido pela bióloga Mayerly Alexandra Guerrero-Moreno e pelo professor José Max Oliveira-Júnior, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), com participação do professor Leandro Juen, do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Universidade Federal do Pará (UFPA). A pesquisa investigou a percepção de moradores indígenas e não indígenas sobre a possibilidade de utilizar libélulas e donzelinhas como elementos de atração turística na unidade de conservação.
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Entomoturismo valoriza biodiversidade amazônica
A proposta está relacionada ao entomoturismo, modalidade que reúne atividades de observação, estudo e fotografia de insetos. Na Resex Tapajós-Arapiuns, os pesquisadores identificaram riqueza e abundância de espécies como Argia sp., Epipleoneura capilliformis, Heteragrion bariai e Oxystigma williamsoni, que podem despertar o interesse de turistas e pesquisadores.
Além do potencial turístico, as libélulas desempenham funções importantes para o equilíbrio dos ecossistemas. Esses insetos participam da reciclagem de matéria orgânica, da transferência de energia e, principalmente nos ambientes de água doce, funcionam como bioindicadores da qualidade ambiental. O estudo destaca que conhecimentos sobre biologia, ecologia e distribuição dessas espécies podem contribuir para o monitoramento de riachos amazônicos.
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Os pesquisadores também defendem a integração dessas atividades ao Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Programa Monitora), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Segundo o artigo, essa associação permite utilizar as libélulas como indicadores ambientais e desenvolver iniciativas turísticas que fortaleçam a gestão sustentável das áreas protegidas.
“O CBET concentra-se na conservação da biodiversidade, envolvendo comunidades locais na gestão e operação de atividades turísticas a fim de promover a cultura local e fomentar o desenvolvimento socioeconômico. A participação e o conhecimento das comunidades anfitriãs são vitais para o planejamento e desenvolvimento desse tipo de turismo”, explicam os autores.
Pesquisa ouviu 415 moradores da reserva
Para avaliar a aceitação da proposta, a equipe realizou 415 entrevistas com moradores da Resex, sendo 44,34% indígenas e 56,66% não indígenas. A investigação considerou a diversidade cultural e as características sociais das comunidades que vivem na unidade de conservação, onde aproximadamente 23 mil pessoas, distribuídas em mais de 4.800 famílias, dependem dos recursos naturais, da agricultura familiar e da criação de pequenos animais.
O levantamento também identificou o protagonismo feminino nas comunidades. As mulheres representaram 53,49% dos entrevistados, indicando uma participação expressiva nas questões relacionadas à organização e ao desenvolvimento local. Para os pesquisadores, o resultado demonstra que “cada vez mais, as mulheres assumem o protagonismo em questões associadas à liderança, ao desenvolvimento e ao progresso das comunidades amazônicas”.
Outro aspecto observado foi a importância dos conhecimentos transmitidos entre gerações. Principalmente nas aldeias indígenas, os moradores mais velhos foram indicados para participar das entrevistas por serem reconhecidos como pessoas que preservam informações sobre costumes, tradições e dinâmicas do território. A escolaridade, entretanto, ainda representa um desafio: 33,73% dos entrevistados tinham o ensino fundamental como nível de formação predominante.
De acordo com os pesquisadores, a oferta limitada de ensino médio e a inexistência de instituições de ensino superior dentro da reserva dificultam a continuidade dos estudos. Em algumas comunidades, os estudantes precisam percorrer longos trajetos fluviais para frequentar aulas. “Como não existem Instituições de Ensino Superior na reserva extrativista, a maioria das(os) estudantes, ao concluir a escolaridade, deve migrar para Santarém ou outras cidades, caso desejem se qualificar”, explicam os autores.
Jacinas e jacintas são reconhecidas pela população
A familiaridade dos moradores com os insetos foi outro resultado importante. Aproximadamente 98,55% dos entrevistados afirmaram conhecer libélulas e donzelinhas, embora utilizem principalmente os nomes populares jacinas ou jacintas. Segundo o estudo, a palavra jacina tem origem na língua Tupi e significa “borboleta marrom com asas azuis-claras”. Os pesquisadores associam essa denominação à aparência de algumas espécies de libélulas, especialmente pela combinação de cores do corpo e das asas.
A relação dos moradores com esses animais também é predominantemente positiva. Enquanto 98,07% demonstraram uma percepção favorável, 63,83% relataram já ter tido experiências com libélulas. A beleza foi a característica mais mencionada, com 32,26% das respostas, seguida pela percepção de que são inofensivas (27,74%), pela aparência colorida (23,23%) e pela capacidade de voar (16,77%). As margens dos rios foram apontadas como os melhores locais de observação por 38,65% dos participantes. Igarapés e áreas de floresta também apareceram entre os ambientes mais citados.
Capacitação pode transformar potencial em oportunidade
Apesar dos resultados favoráveis, os pesquisadores ressaltam que a implantação do ecoturismo comunitário exige investimentos em educação ambiental, treinamento e políticas públicas. A proposta envolve preparar os moradores para identificar espécies, compreender a importância ecológica dos insetos e desenvolver técnicas adequadas de manejo e observação.
O artigo conclui que a valorização das libélulas pode ir além da atração de visitantes: a iniciativa tem potencial para ampliar a participação das populações indígenas e não indígenas na conservação da biodiversidade e na geração de renda. “O financiamento e o desenvolvimento de políticas públicas que apoiem essas iniciativas são cruciais para garantir o sucesso e a sustentabilidade do ecoturismo comunitário”, destacam os pesquisadores.