Aquecimento global pode fazer Marajó perder parte das ilhas

Publicado em 3 de dezembro de 2023

Em 2007, uma das mais renomadas revistas científicas do mundo, a Science Magazine, publicada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência, alertava para o risco de que as ilhas que integram o Marajó poderiam desaparecer ou perder grande parte de seu território caso não fossem tomadas medidas efetivas para reduzir o aquecimento global. Na época, pesquisadores da Divisão de Sensoriamento Remoto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia, utilizaram imagens do satélite Landsat para comprovar que o nível do mar está subindo mais rápido do que o esperado.

Para chegar a essa conclusão, pesquisadores do INPE fizeram uma simulação da enchente que ocorreria na Ilha de Marajó com um aumento de poucos metros no nível do mar. Com 2 metros de elevação, 28% de seu território desaparecerá no oceano. Caso o aumento chegue a 6 metros, 36% da ilha pode ser inundada.

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A Ilha de Marajó foi escolhida porque tem altitude muito baixa de modo geral, sobretudo na costa leste, que apresenta numerosos percursos de rios antigos, existentes no passado geológico onde o nível do mar estava mais baixo do que o encontrado (paleocanais) com amplitude muito pequena, entre 2 e 4 metros.

“As análises feitas até agora mostram que, em meio a uma história movimentada, a Ilha preservou mais de uma linha ancestral de costa, devido a eventos passados de transgressão e regressão marinha. Com a perspectiva de elevação dos níveis do mar (em futuro não muito distante), esta história deve continuar com o estabelecimento de uma nova costa. A Ilha de Marajó sofrerá uma rápida transformação de seu desenho logo aos primeiros metros de elevação do mar”, explica Márcio de Morrison Valeriano, professor e pesquisador no campo de Geociências no Inpe, que participou da elaboração da simulação em 2006.

“Eu tenho certeza de que no Marajó eles lidam com sistemas muito mais frágeis. Eles estão em um sistema estuarino gigantesco, o maior da Terra, que é muito delicado. Estão em um ambiente que depende do equilíbrio entre dois: o marítimo e o pluvial”, avalia o professor em reportagem produzida pela Ambiental Media, startup brasileira de jornalismo científico.

AFUÁ

Em 2021, pesquisadores da área de climatologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), publicaram um artigo comprovando a vulnerabilidade de pelo menos sete municípios localizados na região da Ilha do Marajó. De acordo com os pesquisadores, os resultados atuais podem contribuir para a adoção efetiva de medidas públicas focadas em priorizar os municípios mais vulneráveis e em prepará-los para lidar com os aspectos adversos das alterações climáticas.

O pesquisador Marcos Ronielly da Silva Santos, da UFPA, que juntamente com outros quatro cientistas publicou o artigo sobre os riscos de alagamento de parte do território marajoara, informou em seu estudo que foram avaliados dois cenários: estabilização das emissões de gases do efeito estufa até 2100 e aumento das emissões até 2100.

O resultado é o Índice de Vulnerabilidade dos Municípios (IVM), que varia de 0 (grupo menos vulnerável) a 1 (grupo mais vulnerável). Afuá, no norte da ilha, uma cidade inteira sobre palafitas, é a única que atingiu o índice 1 nos dois cenários, de estabilização e de aumento das emissões até 2100.

RISCO DE INUNDAÇÕES

Com base em projeções de elevação do nível do mar divulgadas em 2021 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, o risco de inundação em regiões costeiras do Brasil e do mundo vai aumentar década a década, considerando a trajetória atual de emissões de carbono.

A Climate Central, organização de notícias sem fins lucrativos que analisa e relata a ciência do clima revela que o Brasil está entre os 20 países com mais de 25 milhões de habitantes que mais serão afetados pela subida do nível do mar, ocupando a 17ª posição na lista de acordo com o estudo “Ameaças sem precedentes às cidades devido ao aumento do nível do mar em vários séculos”, produzido com coautoria do fundador da OnG, Benjamin Strauus.

Segundo o artigo, basta que a temperatura global aumente em 1,5 ºC para que o mar na costa brasileira se eleve em 3 metros. O estudo não apresenta dados específicos do Marajó, mas destaca que as ilhas têm uma probabilidade muito maior de ficarem submersas. A altitude média do Marajó é de 9 metros.


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