Saiba como bumbum masculino virou tendência em novelas

Written by on 26 de outubro de 2022

A novela se
chama “Todas as Flores”, mas, a julgar pelos primeiros capítulos, não
seria exagero se ganhasse o apelido jocoso de “Todas as Bundas”. A
trama de João Emanuel Carneiro para o Globoplay chegou confirmando uma
tendência: o bumbum masculino está em alta na teledramaturgia nacional.

Nos cinco
primeiros capítulos, que estrearam na plataforma de streaming no último dia 19,
três “derrières” de atores já desfilaram na tela. O de Humberto
Carrão, que faz o mocinho Rafael, apareceu de ladinho, mais contido; o de
Nicolas Prattes, que vive o sofrido Diego, numa cena dramática, quando o
personagem foi preso; enquanto o de Caio Castro, que interpreta o malandro
Pablo, estava lá despudorado, em uma cena de sexo num banheiro com vista para o
mar. Mais devem vir por aí.

Eles se
juntarão também ao traseiro de Chay Suede, na pele do confuso Rui de
“Travessia”, que foi um dos destaques da primeira semana de exibição
da novela das 21h da Globo. Após ser mostrado livre, leve e solto -e ainda
levando uma bela apertada- o bumbum do ator rendeu tanto assunto nas redes
sociais que virou até notícia em sites especializados.

Tudo bem que
nudez masculina na telinha não é novidade desde que Tony Ramos apareceu como
veio ao mundo na primeira versão de “O Astro” (Globo, 1977). Porém, é
um movimento que vem -por assim dizer- ganhando corpo.

Mesmo mais
contida que a versão original, exibida pela extinta Manchete em 1990, o remake
de “Pantanal”, exibido pela Globo até outubro, não deixou de ofertar
cenas do tipo -embora o público tenha sido mais presenteado com a nudez
posterior dos atores nas redes sociais, onde pipocaram imagens deles tomando
banho de rio sem roupas entre uma gravação e outra.

Isso sem
falar em “Verdades Secretas 2”, cujo enredo foi praticamente engolido
pelas numerosas cenas de sexo. Disponível no Globoplay desde o ano passado em
versão mais apimentada, a novela está sendo exibida na TV aberta atualmente com
cortes, mas ainda assim com uma ou outra bundinha na tela.

A
psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, autora de vários livros sobre
relacionamentos e sexo, diz que, mesmo com a “moda” das cenas com
nádegas à mostra, é difícil dizer que elas viraram uma “preferência
nacional”, status que o bumbum feminino teve por muito tempo no Brasil.
Pelo menos não a ponto de tornar uma Rita Cadillac ou uma vice-Miss Bumbum,
como Andressa Urach, famosas.

“A
atração que a mulher sente por determinada parte do corpo masculino é um
mistério”, comenta à Folha de S.Paulo. “Uma pesquisa mostra que
apenas 1% das mulheres se sentem atraídas por homens com músculos avantajados.
A maioria prefere homens menos musculosos, vestidos, em vez de nus, e nega ser
obcecada pelo tamanho do pênis. Um terço das mulheres cita as nádegas, pequenas
e firmes, como a característica visualmente mais excitante nos homens.”

Ela lembra
que, de modo geral, o sexo feminino é menos induzido pelo visual que o
masculino. “Durante muito tempo, o mais importante para o homem foi a
mulher com belo corpo, e para a mulher o homem que a protegesse”, conta.
“Isso não é difícil de entender. Desde o surgimento do sistema patriarcal,
há aproximadamente 5.000 anos, a mulher não tinha meios de sobreviver.”

“Atualmente,
as mulheres dão sinais de não estarem dispostas a continuar desempenhando um
papel passivo”, afirma. “Apesar de a maioria ainda desejar
relacionamentos românticos, pesquisas do sexólogo americano Jack Morin
mostraram que, quando se trata de produzir excitação sexual, o sexo explícito é
o que deixa as mulheres com mais desejo, como acontece com os homens.”

Essas
mudanças seriam resultado do espaço que as mulheres conquistaram na sociedade.
“A partir da pílula anticoncepcional, que abriu caminho para os movimentos
de contracultura, o movimento feminista permitiu que as mulheres reivindicassem
os mesmos direitos dos homens”, avalia. “Se eles podem se deliciar
com nossos corpos, por que não podemos fazer o mesmo?”

Para Mauro
Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP (Universidade de São Paulo), a
profusão de nádegas de fora que tomou as telas passa por questões sociais e
antropológicas. O pesquisador acredita que só mesmo na virada dos anos 1990
para 2000 é que o bumbum masculino começou a se fortalecer como estética -até
nas academias de ginástica, onde malhar os glúteos não era comum até então.

“Foi-se
naturalizando os inúmeros aspectos do desejo humano, foi-se compreendendo que o
desejo é amplo, irrestrito e muito particular, e que cada um tem o direito de
expressar a sua sexualidade como bem entende”, avalia. “Se a mulher
pode consumir o que bem entende, se as pessoas têm desejos plurais, então
aquilo que você vai mostrar também pode ser pluralizado. Não tem por que ficar
preso a um quadro heteronormativo.”

Além disso,
mais recentemente, houve a entrada de um novo player: o streaming. Em séries e
minisséries que você pode assistir quando e como quiser, é mais fácil
introduzir esse tipo de cena. Com a concorrência, a bunda acabou também mais
descoberta na TV aberta.

“É
natural que toda essa gama, essa pluralidade de desejo, venha à tona em
empresas que precisam do consumo, que é a base de tudo”, diz. “O
mercado vai começar a atender o desejo dessa mulher, e o homem vai começar a se
exibir mais. A produção audiovisual é o grande retrato da sociedade.”

Mesmo assim,
trata-se de um considerável avanço se considerarmos a época do surgimento da
TV, nos anos 1950. “A bunda masculina era vista com extremo preconceito
porque colocava em xeque a masculinidade”, avalia. “Se o homem que ia
fazer teatro já era visto com suspeita, imagina então mostrar a bunda… Era
pura viadagem.”

Ele lembra
que a carreira de intérprete, tanto para a mulher quanto para o homem, era
muito ligada à prostituição e à promiscuidade. Por isso, em um esforço para que
o trabalho do ator ganhasse validade, o corpo não era mostrado -fosse nos
palcos ou nas telas.

Com o
advento da pornochanchada, os bumbuns começaram a dar as caras no cinema. No
teatro, eles começaram a brotar em peças mais popularescas. Mas, na televisão,
permanecia o tabu. Até porque a censura começou a acompanhar de perto as
produções. “O erotismo e a libido geram uma revolução porque são
libertadores, cada um exerce o prazer do jeito que bem entende”, observa.
“A censura tinha medo disso.”

Com o
declínio da ditadura militar, no final dos anos 80, é que o o corpo começou a
ser mais explorado na TV. Em 1987 o bumbum do modelo Vinícius Manne causou
furor na abertura de “Brega e Chique” (Globo). “Você não imagina
o escândalo que aquilo foi”, conta o estudioso. “Naquela época
parecia que era um marciano, que homem não tinha bunda.”

Depois,
vieram as experiências da Manchete, com a primeira versão de
“Pantanal” e tramas como “Corpo Santo” (1987) e
“Kananga do Japão” (1989). “Era uma emissora despudorada, que
fez muito sucesso, criou um caminho”, avalia. “Mas também não
dependia tanto de audiência.”

De lá para
cá, as bundas masculinas foram tomando as novelas aos poucos, com cenas
esparsas em uma ou outra produção da faixa nobre e com as produções dos
horários mais tardios ampliando os limites do que se podia mostrar ou não
mostrar -o que agora foi intensificado pelo streaming. “Eu só lamento que
a pornochanchada tenha sofrido tanto preconceito, porque muito do que faziam à
época estou vendo hoje, de forma mais elaborada”, diz.


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