Mounjaro: popularidade cresce e uso sem acompanhamento médico exige atenção
Written by Redação on 14 de agosto de 2026
A busca por emagrecimento fez o Mounjaro deixar de ser assunto restrito aos consultórios e ganhar espaço nas redes sociais, nas conversas do dia a dia e na rotina de quem procura uma forma de perder peso. A popularidade das chamadas “canetas emagrecedoras” cresceu nos últimos anos, impulsionada pelos relatos de perda de peso e redução do apetite. Mas, enquanto algumas pessoas comemoram os resultados, especialistas alertam que o medicamento não deve ser encarado como uma solução rápida ou utilizado sem avaliação profissional.
Entre os relatos de quem utiliza a medicação estão mudanças significativas na fome, na relação com a comida e até na disposição para praticar exercícios. Também aparecem efeitos colaterais, como náuseas, indisposição e gases. Para a endocrinologista Vanessa Rocha, o sucesso do tratamento depende justamente de algo que nem sempre aparece nas redes sociais: indicação correta, acompanhamento médico e cuidados para preservar a saúde durante o processo de emagrecimento.
“Sem uma avaliação prévia, não há como saber se há alguma contraindicação”, explica a médica. Segundo ela, durante o tratamento também pode ocorrer perda de massa muscular e óssea, o que exige monitoramento e manejo adequado dos efeitos colaterais.
“Cheguei a ficar praticamente sem fome”
A técnica de segurança no trabalho Dioslaine Vinchiguera, de 31 anos, decidiu procurar ajuda depois de passar aproximadamente seis meses tentando emagrecer por conta própria, principalmente por meio da redução da quantidade de comida e de mudanças na alimentação.
O esforço, porém, não trouxe o resultado esperado. Problemas pessoais enfrentados durante o período também dificultaram o processo. A busca por melhorar a autoestima acabou sendo um dos principais motivos para procurar atendimento especializado.
Após consultar um nutrólogo, Dioslaine iniciou o tratamento com tirzepatida. Ao longo dos três meses de uso, ela perdeu cerca de 12 quilos e relata que a principal mudança percebida foi justamente no apetite.
“Percebi uma redução muito grande no apetite, chegando a ficar praticamente sem fome”, conta.
Mesmo com a fome reduzida, ela diz que procurou manter as refeições e dar prioridade a alimentos com maior quantidade de proteína. A mudança, segundo ela, foi perceptível não apenas na balança, mas principalmente nas medidas e no formato do corpo.
“Em relação ao peso, a redução não foi tão grande quanto eu esperava, mas percebi uma mudança significativa nas medidas e no meu corpo”, relata.
A experiência, no entanto, também veio acompanhada de desconfortos. No início do tratamento, Dioslaine teve bastante indisposição e náuseas e chegou a apresentar episódios de vômito.
“Em alguns dias, cheguei a ter episódios de vômito. Atualmente, ainda sinto um pouco de indisposição, mas de forma mais leve”, afirma.
Mesmo assim, ela diz que os sintomas não foram suficientes para interromper o tratamento.
Até a ida ao restaurante mudou
A mudança na quantidade de comida consumida também alterou situações comuns da rotina de Dioslaine. Hoje, ela conta que consegue se satisfazer com porções muito menores.
“Quando vou a um restaurante, geralmente peço uma porção infantil, porque é suficiente para mim”, conta.
Se a alimentação mudou, a atividade física ainda é um desafio. Dioslaine afirma que não pratica exercícios regularmente, principalmente porque não gosta de academia e nunca teve o hábito de frequentá-la.
A endocrinologista, porém, ressalta que alimentação e atividade física não devem ser deixadas de lado durante o tratamento.
“O próprio tratamento da obesidade e do diabetes exige orientação dietética adequada, como prioridade do tratamento para garantir sua eficácia”, explica Vanessa. Segundo ela, essa orientação também deve considerar a prevenção da perda de massa muscular e óssea.
Mais de 15 quilos a menos
A experiência da biomédica Dandara Borges Despointes, de 30 anos, começou de outra forma. Ela iniciou o uso do Mounjaro no fim de janeiro de 2026, por indicação de uma nutróloga, após avaliação que considerou condições como síndrome dos ovários policísticos, lipedema, deficiência de insulina e obesidade grau 1.
Desde então, Dandara afirma ter perdido mais de 15 quilos. “A vontade de comer besteira reduziu quase totalmente”, relata.
A mudança, segundo ela, não ficou restrita ao número indicado pela balança. Com a redução do apetite, Dandara afirma ter aprendido a fazer escolhas alimentares diferentes e a se adaptar a uma rotina mais saudável.
“Aprendi a escolher melhor os alimentos e me acostumar a comer de forma mais saudável”, afirma.
A melhora na disposição também teve reflexos na prática de exercícios. Dandara conta que passou a se sentir mais disposta e percebeu ganho de massa magra.
“Isso impactou totalmente na minha rotina de atividades físicas, pois me deixou mais disposta e com mais ganho de massa magra”, relata.
Nem tudo é livre de efeitos colaterais
Mesmo com o resultado positivo, Dandara também percebeu reações durante o tratamento. Ela conta que algumas comidas, principalmente as mais gordurosas, podem provocar náuseas.
“Às vezes acontece de sentir náuseas com determinadas comidas, principalmente as gordurosas”, diz. Ela também relata gases quando passa muitas horas sem comer.
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A diferença, segundo a biomédica, está na forma como o tratamento vem sendo acompanhado. Dandara realiza consultas mensais e segue uma rotina de exames indicada pela médica.
“Pesquisei sim, mas não houve algum risco que me preocupou, pois tenho acompanhamento mensal e rotina de exames indicado pela minha médica”, afirma.
O que acontece quando o medicamento é interrompido?
Para Vanessa Rocha, essa é uma das questões que mais precisam ser compreendidas por quem pensa em iniciar o tratamento.
A endocrinologista explica que a obesidade é uma doença crônica e que o tratamento não deve ser simplesmente interrompido por decisão do paciente.
Segundo ela, quando a medicação é suspensa, a recuperação do peso ocorre na grande maioria dos casos. A médica ressalta que isso não deve ser entendido necessariamente como um “efeito rebote”, mas como uma resposta compensatória do próprio organismo, que tende a recuperar o peso perdido.
“Daí a importância da decisão de iniciar o tratamento apenas para quem de fato tem indicação médica”, explica.
Caso seja necessário interromper a medicação, a orientação é que o paciente converse com o médico, que poderá avaliar outra estratégia de tratamento.
Dor abdominal e vômitos exigem atenção
Apesar de alguns efeitos adversos serem conhecidos, determinados sintomas exigem avaliação médica imediata.
Vanessa orienta que pessoas em tratamento procurem um serviço de emergência em casos de dor abdominal intensa, vômitos muito intensos ou diarreia muito intensa.
A médica também reforça que não é recomendado iniciar ou suspender a medicação por conta própria. A decisão deve ser tomada em conjunto com o profissional responsável pelo acompanhamento.
O risco que começa antes da aplicação
A preocupação não está apenas em quem usa o medicamento sem acompanhamento. A forma como ele é adquirido também pode representar um risco.
Com a popularização das canetas emagrecedoras, ofertas de medicamentos passaram a aparecer também em redes sociais e canais informais. Para Vanessa, esse é um sinal de alerta.
“Estas medicações injetáveis para o tratamento da obesidade somente são vendidas no Brasil com retenção de receita médica”, explica.
Segundo a endocrinologista, se uma pessoa consegue comprar o medicamento sem receita, há grande possibilidade de a origem não ser legalizada. Nesses casos, existe o risco de o produto não conter o princípio ativo anunciado ou apresentar uma concentração diferente daquela indicada.
Uma mudança que vai além da balança
As experiências de Dioslaine e Dandara mostram que o tratamento pode ser vivido de maneiras diferentes. Enquanto uma ainda lida com efeitos colaterais e não conseguiu incorporar os exercícios à rotina, a outra relata uma perda de mais de 15 quilos, mais disposição e mudanças nos hábitos alimentares.
Para Dioslaine, o mais importante é que outras pessoas que enfrentam dificuldades com o peso não tentem seguir o mesmo caminho sozinhas. “Pretendo concluir meu ciclo de tratamento e, principalmente, incentivar outras pessoas que também enfrentam dificuldades com o peso a procurarem orientação médica para alcançar seus objetivos de forma mais segura”, afirma.
Ela reconhece que existem riscos e efeitos colaterais, mas considera que o acompanhamento faz diferença ao longo do processo. “O importante é ter acompanhamento profissional, observar como o organismo reage e, caso o tratamento não esteja funcionando ou os efeitos sejam muito intensos, conversar com o médico e avaliar outras opções.”
Em meio à popularidade cada vez maior das chamadas “canetas emagrecedoras”, os relatos mostram que o processo não se resume ao número que aparece na balança. A indicação correta, o acompanhamento médico, a alimentação adequada e a atenção aos sinais do próprio organismo são partes importantes de um tratamento que precisa ser individualizado.