Influenciadora e advogado são suspeitos de comandar esquema de tráfico internacional
Written by Redação on 12 de outubro de 2026
Uma investigação conjunta das polícias do Brasil e da Itália identificou suspeitas de que a influenciadora digital Paula Simões e o advogado Patrick Cardoso assumiram funções estratégicas em um esquema de tráfico internacional de drogas ligado à máfia italiana ‘Ndrangheta. Segundo a Polícia Federal (PF), os dois teriam coordenado operações de envio de cocaína para a Europa a partir de portos brasileiros, especialmente o de Paranaguá, no Paraná. Ambos foram presos no âmbito das apurações, que começaram em 2019.
O caso teve origem na prisão de Nicola Assisi e de seu filho, Patrick Assisi, apontados como integrantes da organização criminosa da Calábria, no sul da Itália. Os dois foram encontrados em Praia Grande, no litoral paulista, e, mesmo após a prisão, a investigação identificou indícios de continuidade das atividades do grupo no Brasil.
Paula Simões, esposa de Patrick Assisi, é apontada pelos investigadores como responsável por representar os interesses criminosos do marido após a detenção. Já Patrick Cardoso, que atuava como advogado dos mafiosos, teria funcionado como intermediário entre os presos e integrantes da organização que permaneciam em liberdade.
Como funcionava o esquema de tráfico
De acordo com a Polícia Federal, o grupo utilizava a estrutura logística do Porto de Paranaguá para enviar grandes carregamentos de cocaína ao exterior. A movimentação financeira também envolveria operadores conhecidos como doleiros, responsáveis por transferências e operações financeiras clandestinas.
As investigações apontaram que a organização continuou atuando mesmo depois da prisão dos principais integrantes italianos. Reportagens do Fantástico, da TV Globo, mostraram como grupos criminosos escondiam drogas em contêineres para viabilizar o transporte internacional.
Segundo o delegado da Polícia Federal Eduardo Verza, mensagens trocadas entre Paula e o advogado Patrick Cardoso tratavam de fornecedores de drogas, cobranças e pagamentos de dívidas, com indícios de envolvimento no narcotráfico internacional.
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A PF também afirma que Cardoso teria usado o acesso reservado aos clientes presos, garantido pelas prerrogativas da advocacia, para transmitir orientações da organização. Entre as evidências reunidas estariam fotografias de bilhetes e de integrantes da máfia feitas dentro da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo.
Os documentos conteriam instruções sobre os negócios ilícitos e cobranças de pessoas que deviam dinheiro ao grupo. Em uma das cartas, Patrick Assisi teria orientado a esposa a enviar um comparsa identificado pelo apelido de “BXX” para recuperar dinheiro e bens que pudessem ser vendidos.
Investigação internacional identificou nova liderança no Brasil
Em 2020, Brasil e Itália, com apoio da Interpol, ampliaram a cooperação para investigar as atividades da ‘Ndrangheta no território brasileiro e em países europeus.
De acordo com os investigadores, Paula teria assumido uma posição incomum dentro da estrutura criminosa, tradicionalmente dominada por homens. O depoimento de um integrante da organização na Itália também teria contribuído para confirmar a existência de uma nova liderança do grupo no Brasil.
No celular de Patrick Cardoso, a polícia afirma ter encontrado fotografias do advogado com drogas e grandes quantias de dinheiro. Ele também é suspeito de utilizar sua atuação profissional para desenvolver atividades criminosas envolvendo integrantes do Comando Vermelho.
Quando Paula e o advogado teriam assumido as operações, o grupo mantinha mais de duas toneladas de cocaína em estoque, segundo a investigação.
Mensagens citam negociação de 400 quilos de cocaína
Conversas interceptadas por meio de um aplicativo utilizado por criminosos indicariam negociações para o envio de drogas à Europa. Em uma das mensagens, trocada em italiano, Paula teria acertado com integrantes da organização o envio de 400 quilos de cocaína.
Nos diálogos, os participantes discutem o preço da carga e mencionam Paranaguá como ponto de referência para a operação. Os valores apresentados na conversa também incluiriam custos relacionados ao transporte.
Para a Polícia Federal, as mensagens reforçam a suspeita de que Paula e outros integrantes atuavam como representantes dos Assisi fora da prisão.
Suspeito também teria ligação com PCC e Comando Vermelho
O homem identificado pelo apelido “BXX” é Franklin Rodrigues de Oliveira, apontado como integrante da quadrilha desde o período em que Nicola e Patrick Assisi ainda estavam em liberdade. Segundo a investigação, ele seria responsável pela logística das remessas de drogas e pelos pagamentos do grupo, além de atuar como elo entre a máfia italiana e organizações criminosas brasileiras.
Franklin também seria sócio de Willian Barile, preso em 2025 e apontado como uma espécie de prestador de serviços para o Primeiro Comando da Capital (PCC). Durante uma operação policial, Franklin teria tentado fugir, mas foi localizado e preso em uma garagem.
O coronel da polícia italiana Andrea Caputo afirmou que a ‘Ndrangheta desenvolveu relações com organizações criminosas sul-americanas, incluindo cartéis colombianos, PCC e Comando Vermelho.
A cooperação entre esses grupos é um dos pontos investigados pelas autoridades, que buscam esclarecer a extensão das conexões internacionais e o fluxo financeiro das atividades ilícitas.
O que dizem as defesas
As defesas dos investigados contestam as acusações.
Os advogados de Franklin Rodrigues de Oliveira informaram que não vão comentar as suspeitas e que pretendem demonstrar a inocência do cliente perante a Justiça.
A defesa de Patrick Cardoso declarou que ele exerceu a advocacia dentro dos limites legais durante seus 25 anos de carreira. Também informou ter apresentado um pedido de revogação da prisão preventiva.
Já o advogado de Paula Simões afirmou que ela nega todas as acusações e destacou que nenhuma droga foi apreendida com a influenciadora. Segundo a defesa, a hipótese de que as atividades criminosas continuaram após a prisão dos Assisi se baseia em interpretações da autoridade policial, e não em fatos comprovados.
As investigações buscam esclarecer a participação de cada suspeito, a dimensão das operações de tráfico internacional e os recursos movimentados pela organização criminosa.