Empreendedora ribeirinha leva chocolate amazônico a feira internacional em Lisboa

Written by on 13 de outubro de 2026

A paraense Elka Conceição Silva, de Barcarena, no Pará, levou o chocolate produzido no coração da Amazônia para uma feira internacional em Lisboa, Portugal. Fundadora da marca Elka Cacau, a empreendedora participou do Chocolat Festival após ser selecionada pelo governo estadual para apresentar seus produtos e buscar oportunidades de negócios no mercado externo. A viagem marcou sua primeira experiência fora do Brasil e também a estreia em uma rodada internacional de negócios, resultado de uma trajetória de superação que une empreendedorismo feminino, valorização do cacau amazônico e desenvolvimento sustentável.

De dona de casa a empresária do cacau

Há pouco mais de quatro anos, Elka começou a construir um caminho diferente daquele que imaginava para a própria vida. Mãe de duas filhas, ela conta que se tornou mãe aos 18 anos e acreditava que sua trajetória ficaria restrita às responsabilidades domésticas.

A mudança começou quando passou a frequentar cursos oferecidos por uma cooperativa de mulheres. O incentivo recebido ajudou a despertar seu interesse pelo empreendedorismo e a retomar os estudos.

“Alguém viu um potencial em mim que eu não via. Eu voltei a estudar porque tinha deixado a escola e comecei a olhar o mundo de forma diferente”, relata.

Hoje, Elka administra a própria marca, participa ativamente da cooperativa e atua como conselheira municipal de economia solidária. A empresa, que ela chama carinhosamente de sua “terceira filha”, tornou-se parte de um projeto maior de autonomia financeira e transformação social.

Chocolate amazônico valoriza o cacau de várzea

A marca Elka Cacau produz chocolates sem lactose a partir de cacau de aroma fino cultivado em áreas de várzea, ambientes amazônicos sujeitos à influência das marés e a períodos de inundação.

O processo envolve desde a seleção das amêndoas até a fabricação do produto final, com participação de mulheres da própria comunidade. A iniciativa fortalece o trabalho coletivo e valoriza a produção local.

“Nós temos um grupo de mulheres hoje que trabalha diretamente da árvore à barra do chocolate. Faz todo o processo seletivo do cacau, das amêndoas e o produto final, todas mulheres”, explica.

Para a empreendedora, o negócio vai além da comercialização de chocolates. A proposta também busca ampliar as oportunidades de trabalho, incentivar a preservação ambiental e demonstrar o potencial econômico das comunidades ribeirinhas.

“A Elka Cacau beneficia toda uma comunidade, não só no empreendedorismo feminino, mas na preservação da natureza, do desenvolvimento, da sustentabilidade das mulheres empreendedoras, empoderando elas também”, afirma.

Primeira viagem internacional abriu novas perspectivas

A participação no Chocolat Festival, em Lisboa, representou uma conquista pessoal e profissional para Elka. Além de viajar de avião pela primeira vez, ela teve a oportunidade de apresentar seus produtos a possíveis compradores e conhecer novas possibilidades de comercialização.

A experiência também marcou sua estreia em uma rodada internacional de negócios, etapa que considera importante para desenvolver habilidades de negociação e preparar a empresa para novos mercados.

“Foi surpreendente. Eu acho que eu atingi o limite que eu esperava de mim, porque primeiramente eu tinha que me desafiar pra poder conseguir desafiar outra pessoa. Porque por mais que eu não conseguisse fechar, eu já ganhei experiência pra próxima”, conta.

A empreendedora considera a feira uma oportunidade de divulgar não apenas o chocolate, mas também a cultura e a história de quem vive e trabalha na Amazônia.

“É uma vitrine de oportunidade. Não é só negociação, mas é a diversidade de produtos e colocar também a nossa história, a nossa cultura pro mundo inteiro”, destaca.

Empreendedorismo feminino como ferramenta de transformação

Além da fábrica de chocolates, Elka mantém um negócio de turismo rural, por meio do qual apresenta aos visitantes o potencial do cacau e a realidade da produção amazônica.

A empreendedora também busca cursos, capacitações e apoio de instituições como a ApexBrasil e a Emater para desenvolver os negócios. Essas iniciativas contribuíram para sua participação em eventos nacionais, como o Chocolat Brasília, e em atividades relacionadas à COP30.

Para ela, ampliar a presença de mulheres em feiras e espaços de negociação é uma maneira de romper barreiras e mostrar que o empreendedorismo também pode ser uma alternativa de renda para quem vive distante dos grandes centros urbanos.

“Nós moramos no coração da Amazônia, no interior do mato mesmo. É uma vida com muitos desafios, principalmente para nós mulheres”, afirma.

Ela ressalta que o trabalho na agricultura exige esforço físico e dedicação, mas acredita que a capacitação e o acesso a oportunidades podem mudar a realidade de outras mulheres da região.

“As oportunidades eu sempre tento agarrar de pés e mãos. Agarro mesmo porque é a valorização das mulheres. No trabalho da agricultura rural é um trabalho pesado e exaustivo também fisicamente, mas a gente tem que empoderar as mulheres que moram no interior, de alguma forma. Acreditar que elas podem”, defende.

Planos para levar o cacau para novos mercados

A participação em Lisboa é mais um passo nos planos de expansão da Elka Cacau. A empreendedora pretende participar de outras feiras internacionais para ampliar a visibilidade da marca e buscar novas oportunidades comerciais.

Ao mesmo tempo, quer fortalecer o trabalho coletivo desenvolvido na comunidade e incentivar outras mulheres a investir em atividades que gerem renda própria.

“Se a gente não quebrar esse círculo, outras mulheres não vão ver uma possibilidade de ganhar dinheiro de outra forma, a não ser só ali dentro. É muito importante eu estar aqui hoje e em todas as feiras, porque crescemos muito”, afirma.


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