Dias Gomes faz cem anos em Brasil que repete “O Bem-Amado”
Written by on 19 de outubro de 2022
Dias Gomes
tinha mesmo que aprontar essa. Completar cem anos bem agora, no meio do segundo
turno destas eleições que nem Sucupira teve igual.
Talvez as
gerações mais novas não saibam, mas Sucupira é a cidade fictícia de “O
Bem-Amado”, umas das obras-primas de Gomes, consagrado dramaturgo e pilar
da teledramaturgia brasileira, que tem seu centenário nesta quarta-feira.
Inicialmente
uma peça de teatro, escrita em 1962, “O Bem-Amado” foi adaptada para
uma novela de TV, em 1973, e um seriado, exibido de 1980 a 1984, ambos na Globo
e com grande sucesso de audiência.
Sucupira é
governada por Odorico Paraguaçu, prefeito corrupto e sem escrúpulos, mas cheio
de encantos, amado pelo povo. Com desvio de verbas e interesses eleitoreiros,
ele constrói o primeiro cemitério da cidade, que tenta desesperadamente
inaugurar para justificar os gastos, obviamente superfaturados, mas nunca
consegue, porque ninguém morre naquele bendito lugar.
A trama
surreal nos faz rir, até que percebemos que a tragicômica Sucupira dos mandos e
desmandos de Odorico nada mais é do que a representação do Brasil.
A denúncia
das mazelas e das injustiças sociais no país já havia se tornado marca da
dramaturgia de Dias Gomes. A intolerância foi o tema de “O Pagador de
Promessas”, de 1959, que deu origem ao filme de mesmo nome, o único
brasileiro a levar o principal prêmio do Festival de Cannes.
Com “A
Invasão”, de 1960, o autor jogou luz na falta de moradia, no desemprego e
na fome. Em “A Revolução dos Beatos”, de 1961, expôs a exploração
política da fé. E, logo após retratar o autoritarismo e a corrupção em “O
Bem-Amado”, escreveria “O Berço do Herói”, de 1963, sobre a
crença em falsos mitos.
Vale repetir
-Dias Gomes retratou um país intolerante, com problemas de moradia, desemprego
e fome, políticos autoritários explorando a fé do povo, que acredita em falsos
mitos. É ou não é uma ironia típica do autor ter o centenário celebrado neste
Brasil de 2022?
Essa
efeméride, aliás, já é subversiva desde a sua origem. O dramaturgo é do mesmo
ano do Partido Comunista Brasileiro, o PCB. O Partidão, como ficaria conhecido,
foi criado em março de 1922, sete meses, portanto, antes do nascimento de Dias
Gomes, com a intenção de promover no Brasil a revolução do proletariado,
substituindo o capitalismo pelo socialismo.
O autor iria
se filiar ao PCB aos 21 anos, em 1944, e passaria boa parte de sua vida
seduzido por essa proposta, intercalando momentos de maior e de menor
engajamento partidário, até a sua desfiliação, na década de 1970.
Essa relação
com o partido faria de Dias Gomes um dos autores mais perseguidos pela censura,
especialmente na ditadura militar. Antes mesmo de sua aproximação com os
comunistas, porém, em peças escritas na juventude, já demonstrava o ímpeto de
denunciar as desigualdades do país, e, com isso, consequentemente, descobriu
cedo o que era ter a liberdade de expressão cerceada.
Sua estreia
nos palcos se deu com um enredo que escreveu aos 19 anos, em 1942, “Pé de
Cabra”, sobre um ladrão filósofo que fala de hipocrisia e distribuição de
renda. A peça só pôde ser montada por Procópio Ferreira depois de ter dez
páginas cortadas pelo Estado Novo, a ditadura de Getúlio Vargas, que a
considerou marxista. Dias Gomes jurava que, até então, nunca havia lido Marx.
Mas, diante dessa acusação, ele resolveu ler.
A partir do
golpe militar de 1964, o teatro de Dias Gomes seria, ano após ano,
inviabilizado com seguidas proibições da censura e ameaças dos órgãos de
repressão. Já célebre, especialmente a partir da premiação de “O Pagador
de Promessas”, de 1962, o autor era tratado nos relatórios secretos da ditadura
como notório comunista, responsável por criações artísticas que representavam
uma grave ameaça ao país.
Uma de suas
obras, em especial, se tornou um marco da censura no Brasil. Em 1965, “O
Berço do Herói” foi proibida na véspera da data marcada para o lançamento.
Dez anos depois, em 1975, adaptada para uma telenovela com o nome de
“Roque Santeiro”, foi também vetada um dia antes do que seria a sua
estreia. Um editorial foi lido no Jornal Nacional, escancarando, de forma
inédita, a falta de liberdade de expressão no país.
A trajetória
dessa obra, duplamente vetada, ilustra também a absorção de autores de esquerda
pela televisão e a mudança de foco da censura ao longo da ditadura. Perseguidos
no teatro nos primeiros anos do regime militar, os dramaturgos levariam seu
olhar crítico para a crescente audiência da TV, que logo estaria no centro das
preocupações dos censores. Às novelas, queridinhas dos telespectadores, eles
dariam especial atenção, conferindo linha por linha dos roteiros.
Mesmo
tolhidos pela censura e limitados pelos interesses econômicos das emissoras de
televisão, Dias Gomes e sua mulher, a famosa roteirista Janete Clair, ao lado
de outros grandes autores, construiriam uma teledramaturgia que, entre cenas
cômicas e juras de amor, retratava criticamente a realidade nacional.
Dessa forma,
aquele país da intolerância, da corrupção, do autoritarismo e da crença nos
falsos mitos, em vez de permanecer restrito às plateias elitizadas do teatro,
seria exposto ao público massificado da TV e entraria para o imaginário popular
com uma força que nos leva a reconhecer, décadas depois, Sinhozinhos Maltas,
Viúvas Porcinas e Odoricos da vida real, especialmente neste Brasil do
centenário de Dias Gomes.
Um outro
aspecto do autor, esse menos midiático do que o das críticas aos governantes,
tem também muito a dizer sobre os dias de hoje –a sua coragem de questionar a
esquerda e a si próprio como intelectuais de oposição.
Ainda em
1969, no auge da repressão da ditadura, ele escreveu a peça “Amor em Campo
Minado”, na qual o protagonista é um militante comunista que, ao lado da
mulher, está dentro de um apartamento, cercado pela polícia, e vive com ela uma
explosão de estresse em que questiona o casamento e a militância.
A mulher
pergunta se ele é um monstro. “Não, um intelectual apenas”, diz o
personagem. “Frequentemente indeciso entre morrer por uma nobre causa e
viver pelos pequeninos e muitos prazeres de uma existência acomodada.”
Proibida à
época, a peça só pôde ser encenada em 1984 e se mostrou atual naquele momento
em que a ditadura chegava ao fim e a esquerda se via abatida pela derrota das
Diretas Já e excluída da transição negociada para a democracia.
Em seu
centenário, Dias Gomes nos brinda com a atualidade de criticar Odoricos sem
poupar os erros de seus adversários, aparecendo com desconcertante
transparência nesse jogo, como resume uma declaração sua, numa entrevista
durante a ditadura.
“Muitas
vezes esperei que um dos meus filhos me olhasse nos olhos e dissesse ‘puxa,
pai, vocês não podiam ter feito nada para evitar?’. Eu não saberia o que lhe
responder. Talvez gaguejasse uma defesa. ‘É, filho, infelizmente nós nem
acreditávamos que fosse possível chegar aos tempos sombrios a que hoje
chegamos’.”