“Avatar: O Caminho da Água” mergulha o cinema no mar
Written by on 14 de dezembro de 2022
Mergulhador profissional, James Cameron inundou as salas de
cinema de gente ao pôr um navio para naufragar e, depois, uma expedição para
resgatar seus tesouros em “Titanic”, de 1997. Foi a maior bilheteria
da história à época, até ser destronado por outro filme do cineasta,
“Avatar”, em 2009.
Nele, Cameron voltou à superfície numa trama que tinha nos
voos em criaturas aladas e nos saltos entre árvores gigantescas boa parte de
seu senso de encantamento. Agora, após um jejum de 13 anos, o canadense decidiu
retornar à cadeira de direção justamente com uma espécie de casamento desses
dois projetos, “Avatar: O Caminho da Água”.
Como o título sugere, ele retoma os personagens de
“Avatar”, mas submerge a câmera para que o espectador descubra o que
guardam as profundezas dos mares de Pandora, lar das criaturas alienígenas
azuis de três metros concebidas para a trama original. Com suas mais de três
horas de duração, sobra tempo até para Cameron afundar um novo navio.
Principal estreia da semana -e, não é exagero dizer, do
ano-, “O Caminho da Água” chega envolto em expectativa por vários
motivos, que vão muito além da espera de mais de uma década por uma sequência.
Primeiro, o filme tem potencial enorme na temporada de
premiações de Hollywood, como o Globo de Ouro confirmou. Segundo, Cameron
investiu novamente em tecnologias inéditas para tirar suas ideias do papel.
Terceiro, todos querem saber se os 13 anos de intervalo fizeram o interesse
pelos personagens naufragar ou se “O Caminho da Água” tem chances de
se aproximar dos US$ 2,7 bilhões, cerca de R$ 14,2 bilhões, que o original
arrecadou.
“As pessoas acham que é natural, depois de se fazer
muito dinheiro com um filme, produzir uma sequência, mas o Spielberg não fez
uma continuação para ‘E.T.: O Extraterrestre'”, diz Cameron em conversa
com jornalistas, ao ser questionado sobre a demora para que um “Avatar
2” chegasse.
A frase parece um tanto alheia ao apetite voraz de Hollywood
por continuações, refilmagens e derivados, e também à própria intenção de
Cameron de expandir seu universo em outros três filmes, já em desenvolvimento e
previstos para 2024, 2026 e 2028. Mas ele segue a explicação.
“O grande incentivo para que eu retornasse a esse
universo foi o quanto a equipe de ‘Avatar’ se divertiu enquanto o fazia. E,
claro, é importante que uma sequência honre o que o público amou, mas ao mesmo
tempo apresente elementos que sejam inesperados.”
Além da água, estão entre esses elementos uma nova etnia do
povo na’vi e dramas familiares que expandem os temas ecologistas herdados do
primeiro “Avatar”. É um roteiro mais complexo, avalia o cineasta, que
levou às telas suas questões enquanto pai. “Você aprende a ter medo quando
tem filhos”, afirma ao resumir quão diferentes estão os protagonistas Jake
Sullivan e Neytiri.
Agora, o soldado americano e a guerreira alienígena,
interpretados por Sam Worthington e Zoe Saldaña, precisam cuidar de um quarteto
de crianças e adolescentes, e por isso são mais cautelosos e menos
aventureiros.
Para quem não se lembra de “Avatar”, a história é
ambientada num futuro em que a Terra sofre com a escassez de recursos naturais.
O planeta Pandora, com sua fauna e flora ricas, entra na mira de autoridades,
empresários e militares, que ignoram os apelos dos cientistas que estão no
local para estudar sua biodiversidade. Para isso, os pesquisadores precisam
entrar em avatares, corpos sintéticos iguais aos da raça na’vi.
É nessa forma que Jake, então um informante do Exército
americano, se apaixona por Neytiri. Ele desiste de ajudar os invasores humanos
e lidera uma rebelião dos locais, que conseguem, após muitas perdas, retomar
seu lar.
Ao menos era o que achávamos. “O Caminho da Água”
abre com uma prólogo que conta como os terráqueos, mesmo assim, conseguiram
montar uma enorme base em Pandora, dez anos depois. O casal protagonista lidera
a resistência à la “Star Wars”, mas nem imagina que o objetivo agora
não é só extrair recursos, mas também fazer do planeta um novo lar para os
terráqueos.
“Nós poderíamos fazer um documentário sobre o que está
acontecendo com a Terra, e ele seria preciso, didático e assustador, mas
‘Avatar’ não é isso. Esta é uma história fantástica e íntima sobre uma família,
que tem como pano de fundo a destruição de Pandora”, diz Stephen Lang, que
repete o papel do vilão Miles Quaritch, que sai destruindo qualquer animal,
planta ou na’vi pela frente.
“É claro que há uma conexão a ser feita com o nosso
planeta. No Brasil, por exemplo, esse é um grande problema. Então seria incrível
se ‘O Caminho da Água’ estimulasse não só conversas, mas ações para que nós
preservemos o nosso lar.”
Há paralelos óbvios entre o desgaste de Pandora e a crise
ambiental que vivemos. Num exemplo de caça predatória, a câmera ágil de Cameron
entra e sai do mar, perseguindo um grupo de baleias. As criaturas, na verdade,
são “tulkuns”, tão imensas e inteligentes quanto suas equivalentes da
vida real.
Uma formação de barcos se prepara, então, para dar o bote.
Seus tripulantes querem extrair uma espécie de óleo, como o óleo de baleia tão
utilizado até o século passado, e para isso não se preocupam se estão
desestabilizando o ecossistema marinho.
Chega a ser irônico que um filme tão preocupado com o meio
ambiente exija uma tecnologia tão avançada para sair do papel.
“Avatar” revolucionou a experiência cinematográfica ao usar o 3D como
nunca antes e ao popularizar a captura de movimentos, em que feições e gestos
de atores são transmitidos para personagens criados em computação gráfica.
“O Caminho da Água”, agora, tem a difícil tarefa de repetir o senso
de novidade e imersão de 2009.
Nesse contexto, ambientar boa parte do filme debaixo da água
parece uma sacada de gênio -mas não um caminho fácil. Cameron, então,
desenvolveu aparelhos que poderiam realizar a captura de movimentos necessária
para dar vida aos na’vis no fundo de tanques de mergulho.
“Aquaman” e o live-action de “A Pequena
Sereia” previsto para o ano que vem, por exemplo, usaram CGI, computação
gráfica, para fazer com que os atores aparentassem estar no oceano. Já no novo
“Avatar”, Worthington, Saldaña, Sigourney Weaver e Kate Winslet
tiveram que se molhar e aprender a mergulhar em apneia -a musa de
“Titanic” segurou a respiração por sete minutos e 15 segundos durante
as filmagens, quebrando o recorde que Tom Cruise havia estabelecido em
Hollywood.
Tudo para que a leveza dos corpos de seus avatares quando
abaixo da água fosse replicada à perfeição. O resultado é uma experiência
realmente imersiva, que servirá de munição para aqueles que defendem que longas-metragens
devem ser lançados nas salas de cinema, não diretamente no streaming.
Winslet, uma das novatas de “O Caminho da Água”,
aparece em cena como uma na’vi de pele mais turquesa e braços adaptados para o
nado. Ela é de outra região de Pandora e, portanto, de uma etnia diferente.
Enquanto conversa com uma “tulkun”, peixinhos alienígenas invadem a
sala do cinema, cercando o espectador com a ajuda de um 3D primoroso.
A sensação vai além daquela proporcionada por um aquário, é
como se a plateia fosse de fato mergulhada num gigantesco tanque. O fascínio é
ainda maior quando Cameron introduz águas vivas, algas marinhas e peixes
bioluminescentes, a exemplo do que fez com a fauna e flora terrestres em
“Avatar”.
Em tempos de incertezas pós-Covid para as salas de cinema,
atingidas ainda pela ascensão do streaming, “Avatar: O Caminho da
Água” parece ser o candidato ideal para provar que a televisão de casa nem
sempre dá conta do recado. E, de quebra, que James Cameron sabe montar um
espetáculo como poucos.
AVATAR: O CAMINHO DA ÁGUA
Quando Estreia nesta quinta (15), nos cinemas
Classificação 14 anos
Elenco Sam Worthington, Zoe Saldaña e Sigourney Weaver
Produção EUA, 2022
Direção James Cameron