Marabá ganha documentários que resgatam identidade e memória da periferia

Written by on 4 de setembro de 2026

Marabá será retratada por diferentes perspectivas no cinema a partir do fim de setembro, quando os documentários “Marabela” e “Cabelo Seco” chegam ao público paraense. Produzidos por jovens da periferia integrantes do projeto Perifa.Doc, os filmes mergulham em histórias, memórias e conflitos do município do sudeste do Pará para questionar as narrativas tradicionalmente construídas sobre seus territórios e, principalmente, quem tem o direito de contar essas histórias.

As duas produções foram selecionadas pelo Perifa.Doc, iniciativa que promove formação audiovisual para jovens das periferias e conta com patrocínio master da Vale por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet. Depois de oficinas práticas, aulas teóricas, cineclubes e saídas de campo, os participantes transformaram experiências vividas nos próprios territórios em narrativas autorais.

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O documentário “Marabela” nasceu do encontro dos realizadores com o poema homônimo da professora Eliane Soares. A partir do jogo de palavras entre “MaraBala” e “MaraBela”, a equipe passou a investigar as diferentes imagens associadas à cidade ao longo de seus 113 anos de história e de sua trajetória de emancipação política.

A proposta, entretanto, não é escolher entre uma Marabá marcada pelos problemas sociais e outra associada às belezas naturais e culturais. O filme busca justamente mostrar que essas realidades podem existir simultaneamente.

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De um lado, aparecem desigualdade, conflitos e dificuldades vivenciadas pelos moradores das periferias. Do outro, estão as paisagens, a cultura, a música, a dança, os afetos e os vínculos construídos pela população.

“Esperamos que o público reflita sobre os desafios sociais presentes em Marabá, compreendendo que a dicotomia entre beleza e caos pode coexistir historicamente em um mesmo território, assim como em diversos lugares do país”, afirma a equipe.

A HISTÓRIA MUDOU DURANTE A PRODUÇÃO



A própria realização do documentário fez os jovens modificarem a ideia inicial sobre a narrativa. No começo, a intenção era encontrar personagens que se identificassem predominantemente com a “MaraBala” ou com a “MaraBela”. A convivência e a escuta dos moradores, porém, revelaram que essa divisão era muito menos evidente do que parecia.

Em muitos casos, as duas experiências estavam presentes na trajetória de uma mesma pessoa. A descoberta levou os realizadores a abandonar uma interpretação simplificada e construir uma narrativa capaz de comportar as contradições do município.

A equipe também espera que o jogo entre os termos “Marabala” e “Marabela” provoque uma reflexão linguística e pedagógica sobre a maneira como o território é interpretado e sobre as narrativas construídas em torno da cidade.

A intenção é não entregar ao espectador uma visão definitiva. “Não queremos cristalizar a interpretação dos espectadores sobre Marabá”, explica o grupo, formado por Daniele Mousinho, Pedro Kauê Negreiros, Lucas Fernandes, Layanni Pompeu, Tayllon Fonteneles, Adrian Santos, Marcos Landin, Débora Melo, Marcos Riper, Carine Santos, Fernando Fernandes, Sarah Lima e Felismar Rodrigues.

CABELO SECO: QUANDO A COMUNIDADE ASSUME A PRÓPRIA HISTÓRIA



Em “Cabelo Seco”, a relação entre território e identidade aparece a partir de outra questão: o significado atribuído ao próprio nome da comunidade.

O documentário investiga uma história atravessada por estigmas, preconceito racial e pela desvalorização das mulheres negras. Ao entrar em contato com o território, entretanto, os realizadores encontraram uma realidade que contrasta com essa imagem.

No centro dessa outra narrativa estão mulheres responsáveis pela preservação de memórias, pela construção de vínculos comunitários e pela movimentação de iniciativas culturais.

Entre elas estão o coletivo Raízes do Cabelo Seco e o Dança Longevo, exemplos de ações que ajudam a manter vivas as relações culturais e afetivas da comunidade.

MULHERES NO CENTRO DA NARRATIVA



A pergunta que conduz o documentário é justamente sobre a possibilidade de ressignificar uma identidade construída durante anos por olhares externos. Se “Cabelo Seco” foi associado historicamente a determinados estigmas, como o território passa a ser percebido quando seus próprios moradores assumem o direito de contar sua história?

Para responder à questão, o filme coloca as mulheres da comunidade no centro da narrativa. São elas que compartilham memórias, experiências e maneiras de se relacionar com o lugar onde vivem.

A ressignificação, portanto, não é apresentada como algo criado pelo documentário. O filme procura registrar um processo que já ocorre dentro da própria comunidade. “Esperamos que Cabelo Seco desperte um novo olhar sobre as histórias que carregamos e sobre o poder que as palavras têm de construir, mas também de transformar identidades”, afirma o grupo responsável pela produção.

A equipe é formada por Bárbara Lopes, Vitória Monteiro, Madu, Grazi Azevedo, Gabriel Dias, Beatriz Rocha, Maria Eduarda, Alyne Pacheco e Aline Veríssimo.

AUDIOVISUAL PRODUZIDO DE DENTRO PRA FORA

Apesar das diferenças entre as duas histórias, “Marabela” e “Cabelo Seco” partem de uma mesma ideia: olhar para Marabá a partir de quem vive seus territórios. É justamente esse um dos princípios do Perifa.Doc. O projeto estimula jovens das periferias a utilizar o audiovisual para transformar experiências pessoais e coletivas em produção cinematográfica.

Nesse processo, os territórios deixam de ser apenas cenários para se tornarem parte essencial das narrativas. As ruas, comunidades, personagens, memórias e manifestações culturais passam a conduzir os filmes.

A formação oferecida pelo projeto combinou atividades teóricas e práticas, incluindo oficinas, cineclubes e saídas de campo. A experiência permitiu que os participantes percorressem diferentes etapas da produção audiovisual, desde a construção das ideias até a realização dos documentários.

EXIBIÇÕES ACONTECEM NO FIM DE SETEMBRO

Depois de meses de produção, os documentários deixam a ilha de edição e chegam ao público. A previsão é que “Marabela” e “Cabelo Seco”, junto a outras produções do Perifa.Doc, sejam apresentados em Marabá e Belém entre os dias 25 e 30 de setembro.

A iniciativa pretende transformar as exibições em uma celebração do audiovisual produzido pelas periferias e de sua capacidade de registrar memórias, provocar debates e construir novas formas de representação.

Mais do que contar histórias sobre Marabá, os filmes colocam em discussão uma questão que atravessa os dois territórios: quem conta uma história também participa da construção da identidade de um lugar.

E, ao entregar a câmera aos próprios moradores, “Marabela” e “Cabelo Seco” propõem que Marabá seja vista não como uma cidade de uma única versão, mas como um território formado por muitas vozes, memórias e maneiras de existir.


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